Alguns shows dos anos 80 em Porto Alegre em que fui

Blog de rogerioratner :Rogério Ratner, Alguns shows dos anos 80 em Porto Alegre em que fui

 

 

Alguns shows em Porto Alegre nos anos 80

Por Rogério Ratner

 

 

Assisti nos anos 80 vários shows legais em Porto Alegre. Possivelmente me escaparão vários, mas de  alguns eu me lembro, ainda que a minha memória não seja das melhores. Como, na verdade, não realizei uma pesquisa, o que seria realmente necessário para fixar melhor no tempo as datas e os eventos, estas mal traçadas linhas valem apenas como meras reminiscências perdidas no tempo. Mas talvez seja interessante para o pessoal ver um pouco do que rolava, ou, no caso daqueles com idade próxima à minha (42 anos), como lembrança dos bons tempos idos. Como diria o Mauro Borba, são memórias  "do tempo em que você era feliz e não sabia".

Inicialmente, talvez seja interessante registrar  que,  ao menos na minha sensação pessoal, os shows naquela época tinham ingressos com preços bem mais em conta, o mesmo acontecendo em relação aos teatros e cinemas. Mas nunca procurei fazer um cálculo, mesmo que aproximado, a fim de comprovar "cientificamente" isto, é apenas uma sensação. O fato é que, apesar de eu ser apenas estudante na época (até 1986, quando comecei a trabalhar como “barnabé” na Prefeitura de Porto Alegre), tinha finais de semana em que eu ia a dois ou três shows em que era cobrado ingresso. E olha que eu era um estudante da UFRGS que "não tinha onde cair morto". Mas também talvez seja necessário acrescentar que eu tinha uma poupança na Crefisul, na agência que ficava na esquina da Fernandes Vieira com a Osvaldo Aranha, conseqüência de inúmeros cofrinhos com moedinhas "descarregados" ao longo da minha infância, e que torrei rapidamente comprando LPs e fitas cassete (e possivelmente ingressos de shows, do que não tenho uma lembrança exata) quando já tinha idade suficiente pra fazer os saques  sem que os “coroas” soubessem. De toda forma, creio que seja bem possível que realmente os ingressos fossem mais baratos naquela época em shows nacionais e internacionais, pois hoje em dia estes beiram a exorbitância. Os shows locais geralmente ainda são mais ou menos acessíveis, dependendo do caso, é claro.

Um mega-show bem legal que lembro de ter ido foi o promovido pela RBS, acho que em 1984, no Parque Marinha do Brasil. Esse, naturalmente, foi de graça (no estilo dos shows que hoje rolam na concha acústica). Reuniu diversas bandas gaúchas (Replicantes, Byzarro, acho que a Banda de Banda, De falla, entre muitas  outras), com o pessoal da chamada MPG (Gélson Oliveira, Nélson Coelho de Castro, Bebeto Alves). Que eu me lembre, foi uma das poucas ocasiões em que o pessoal das duas "tendências" dividiu o palco desde então, apesar que recordo de ter ido em um outro show (este no Gigantinho) em que tocaram Nei Lisboa e TNT, dentre diversos outros grupos e artistas, mas não me lembro se foi antes ou depois daquele. A partir de então, de um modo geral, houve uma certa segmentação entre o público roqueiro e o MPBista. Mas algumas pessoas (como eu próprio) que curtiam os dois "estilos",  transitavam nas duas fatias de público.  O Marinha do Brasil era um lugar bastante utilizado para shows ao ar livre gratuitos. Me lembro de um show fantástico do 14 Bis (isso foi por 81), do Herva Doce e se não me engano também o Saracura, que foi lá. E também de um show que teve o TNT em sua primeira formação (todos carecas,  o visual que os caras adotaram na época), e o Kid Abelha (será que foi em 1984?). Devido a um tremendo temporal que caiu, o show foi cancelado bem na ora em que a banda carioca se apresentava, porque a Paula Toller levou uns choques ao pegar o microfone. Era a primeira dentição do Kid Abelha (Lp Seu Espião), ela usava cabelo bem curto e castanho, e o Leoni ainda estava na banda. Quando ela lançou seu segundo disco solo, este ano, e deu autógrafos na Livraria Cultura, falei pra ela que eu estava nesse show. Ela riu e ficou com um olhar meio vago, o que me fez pensar que provavelmente não se lembrava mais deste show, ou que dispensava fãs jurássicos como eu (rss). Brincadeira, ela foi super simpática, mas realmente me pareceu  não lembrar mais do evento. 

Outro show bem maluco que assisti foi o da banda argentina Dragon e da banda paulista Patrulha do Espaço, no Araújo Vianna (ainda sem cobertura, naturalmente). O baixista gaúcho Mitch Marini andou tocando com o pessoal da Dragon, e a Patrulha acompanhou o Arnaldo Baptista após ele sair dos Mutantes. Naquela época não era proibido vender latas de cerveja em shows, o que era insano. Então o que ocorreu foi um verdadeiro massacre  do público contra os músicos, pois o pessoal fez chover toneladas de latas arremessadas ao palco, sempre tendo na mira os pobres roqueiros que tentavam tocar o seu hard rock honestamente. Foi a primeira vez que eu vi aqui um cara tocando guitarra sem fio. O guitarrista da banda argentina já usava esta tecnologia naquela época, ao que me consta, inédita em Porto Alegre, então ele percorreu as escadas que separam o público do palco do auditório diversas vezes... De forma incauta, sem dúvida, pois assim fazendo só facilitou a vida dos "atiradores" . Até que chegou uma hora em que os músicos, cansados de servir de alvo, ameaçaram terminar o espetáculo antes da hora, aí a coisa acalmou um pouco, mas não por muito tempo. Eu nunca havia visto tanta agressividade contra os músicos, o que se explica pelo fato de que  eu nunca tinha ido num show com público de heavy metal. Aliás, o público metaleiro da época em Porto Alegre era tão raivoso que, em uma vez em que o Robertinho do Recife, em sua fase "metal", não apresentou, não sei porque razão, o show que estava marcado para o Araújo (ele já tinha feito outros no local com muito sucesso), o pessoal quebrou vários  bancos, que então eram de madeira. Eu vi também um show da Dragon no Taj Mahal, boate que ficava na Farrapos, bem no meio da “zona”. Lembro bem que eu só tinha dinheiro pra entrada. Quando fiquei com sede tive que ir no banheiro tomar água “da bica”. Depois do show, boa parte do pessoal se atirou na piscina que havia no “pátio”. O Taj Mahal era tocado pelo Ricardo Barão, que foi um dos primeiros DJ’s a rolar um som mais hard, puxando pro heavy metal, nas noites da então estreante Ipanema FM. O seu programa era um clássico, e ele sempre deu muita força pra galera local do rock, me lembro de ouvir bastante o Júlio Reny, quando ele rodou muito a primeira “fita” (aquela que tinha a música Cine Marabá) em seu espaço. Ricardo mais recentemente transmitiu pelas ondas da Ipanema um lance mais light,  o programa “Música do Mundo”, focado na  world music.   

Um outro show que ficou vivamente guardado na minha memória foi o do Hermeto Paschoal, no mesmo Araújo. Lembro que em uma parte do show (que foi interminável), o maluco decidiu transformar a sua banda em uma  "retreta", só com instrumentos de sopro, trombone, tuba, saxofone, trumpete, flauta. E desceram do palco, saíram pelo portão ao lado, deram a volta no auditório e pararam no portão da entrada (aquele que dá pra Osvaldo Aranha), sendo que o público também saiu e seguiu atrás daquela trupe. Parecia o flautista de Hamelin e os ratinhos indo atrás. Até que, quando pararam na entrada, ficou um bolo de gente misturada, músicos, platéia e brigadianos (aos montes). E quando dei por mim, eu estava bem ao lado do Hermeto. Daí eles decidiram entrar de novo e subiram no palco, reassumindo seus instrumentos originais (baixo, piano, bateria, etc.), e todo o público subiu no palco e ficou assistindo o show dali mesmo, colado nos músicos, até o final. Com certeza, foi o show mais heterodoxo que vi em termos de comunicação músico-platéia. Inesquecível, os caras "quebravam tudo", como continuam fazendo até hoje. 

Também merecem destaque os shows do Cheiro de Vida e do Raiz de Pedra, dois grupos gaúchos que faziam música instrumental de ótima qualidade. Me lembro de ter visto o Cheiro no Araújo e no Teatro Leopoldina (Ospa). A banda só tinha cobras: Alexandre Fonseca (bateria), Carlos Martau (guitarra), Paulinho Supekóvia (guitarra), André Gomes (baixo), depois entrou o Dudu Trentin nos teclados. Os caras, à exceção do Paulinho (que, dentre outras coisas, acompanha o Nei Lisboa), mudaram-se pro Rio, e passaram a tocar como músicos contratados de Pepeu Gomes, Marina Lima, Kleiton e Kledir e muitos outros feras. Antes já haviam tocado e gravado com a cantora Diana Pequeno, que fez bastante sucesso nos meados dos 80 com seu som rural. O som do Cheiro é meio difícil de definir, mas o pessoal costumava dizer que o estilo era funk-rock. Mas a verdade é que é uma mistura de vários elementos sonoros. A banda ainda existe no Rio.

O Raiz de Pedra, além de ter ido em mais de um show na Reitoria, me lembro de  ter visto no Theatro São Pedro, lotadaço. O som do Raiz também não é fácil de classificar, misturava música erudita de vanguarda com jazz, e muitas outras coisas, era um som de difícil aceitação, o que torna ainda mais admirável o fato de o grupo ter tido tanta notoriedade em termos de público. São todos excelentes músicos: Márcio Tubino (flauta e sax), César Audi (bateria), Marcelo Nadruz (teclado), Pedro Tagliani (guitarra), Ciro Trindade (baixo). À exceção do Marcelo, “se fueram” de mala e cuia pra Alemanha, onde lançaram alguns CDs. De vez em quando algum deles aporta aqui. O César Audi está de novo nos rincões, tocando o melhor jazz com os excelentes Luisinho Santos e Bethy Krieger.

Ambos os grupos lançaram em Porto Alegre seus LPs, antes de alçarem vôo. Seus shows eram sempre com a casa cheia, uma marca admirável para a música instrumental gaúcha, que possivelmente tenha experimentado por meio destes dois grupos uma das fases de maior  aceitação em termos de público.

Outro show notável que vi foi o do MPB4, no Teatro Leopoldina, em 1980. Notável principalmente porque eles convidaram a dupla  Kleiton e Kledir para uma participação especial. Eles  recém estava lançando o primeiro LP da dupla, após o fim dos Almôndegas. A participação deles, na verdade, “roubou” o show, e causou um verdadeiro delírio, foi uma  catarse  para o público. Eram, à época, e são, ainda hoje, artistas gaúchos muito queridos vindos dos anos 70 que estavam entrando pela porta da frente da MPB, e foi um grande orgulho pra todo mundo do público, que se sentia fazendo parte da vitória deles. Aliás, cabe dizer que eu sempre passava as férias de verão, na época, na casa de minha tia Estela, no Rio, e uma vez tentamos ir ver um show da dupla em um teatro em Ipanema, mas tivemos que voltar, frustrados, pois não havia mais ingressos. Kleiton e Kledir realmente causaram furor no Rio, naquele período. Estavam “bombando”, como diria o meu filho Jonas.

Eu era fregüês também do Projeto Unimúsica, gratuito. O Projeto não era como é agora, ocorria semanalmente (na sexta-feira), e sempre apresentava nomes do cenário local que estavam aparecendo, sendo realizado no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS. Uma época ocorreu no prédio ao lado, no chamado salão de festas, subindo a escadaria. Me lembro de ter visto no salão de festas a Banda Swing (tocou só Beatles), o Paulo Gaiger, o Giba-Giba... no Salão de Atos me lembro de ver o Couro, Cordas e Cantos (que depois foi repaginado para Bandabsurda), o James Liberato, o Bebeto Alves, o Nando Gross, o Galileu Arruda, o Nelson Coelho de Castro, o Totonho Villeroy, o Cao Trein (acompanhado do Raiz de Pedra), o Hique Gomes (antes do Tangos e Tragédias), o Canto Livre, o Nei Lisboa, a Glória Oliveira, a Elaine Geissler, o Dunga, o Mauro Kwitko, os Garotos da Rua e muita gente boa mais. Era um excelente espaço para os músicos locais, e o público universitário prestigiava muito, geralmente lotando as apresentações.

Outro show inesquecível que tive oportunidade de assistir à época  foi o do Egberto Gismonti, na Reitoria, que estava lotada. O cara sozinho, se revezando no violão e no piano, tocando seus clássicos, como “Loro” e “Palhaço”. Foi um arraso total, ele é incrível, e quem já o viu tocar ao vivo sabe disto. O show do grupo paulista D'alma, no Teatro Leopoldina (André Geraissati, Mozart Mello e Ulisses Rocha, todos ao violão) também foi espetacular. Também foram muito legais os shows da vanguarda paulista aqui em POA: Itamar Assunção, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque, Tetê Espíndola, Língua de Trapo, todos na Reitoria. Porto Alegre possivelmente tenha sido um dos lugares em que eles obtiveram maior repercussão,  pois seus shows aqui sempre lotavam. Outro show legal foi do Marco Antônio Araújo, no Teatro Leopoldina, instrumental. Também foi  bacana o Ultraje a Rigor no Gigantinho, que tava lotadaço, não dava nem pra se mexer. E o Camisa de Vênus, no Araújo, também com o público saindo pelo ladrão, em que todo mundo cantou em coro: "Sílvia, piranha", e "Bota pra fudê". Teve um show também que lembro bem do Gilberto Gil, no Parque Farroupilha, um montão de gente. Ele esqueceu uma parte da letra de “Domingo no Parque”, e perguntou se alguém do público sabia, aí a cantora gaúcha Annie Perec foi lá e cantou a parte que ele não lembrava. Lembro, ainda, de um show muito legal dos Engenheiros do Hawaii,  na Redenção (no Monumento do Expedicionário), ainda com a primeira formação, pois o Augustinho Licks ainda tocava com o Nei Lisboa. Outro show super legal foi o "Canta Brasil", no Gigante da Beira-Rio: Chico Buarque e mais um monte de medalhões da MPB, inclusive  Kleiton e Kledir. O Zé Flávio arrasou no solo de "Deu pra ti".

Enfim, se eu forçar a memória um pouco mais vai pintar lembrança de muita coisa boa. Foi uma época em que a freqüência de shows em Porto Alegre aumentou barbaramente, uma espécie de antesala de toda a diversidade e quantidade de shows que é ofertada hoje na capital gaúcha.

 

14 bis, andre gomes, carlos martau, cheiro de vida, hermeto paschoal, kid abelha, kleiton e kledir, leoni, marina lima, nei lisboa, parque marinha do brasil, patrulha do espaco, paula toller, pepeu gomes, raiz de pedra, unimusica

quinta 29 novembro 2007 16:55



6 comentário(s)

  • sergio mailto Ter 13 Mai 2014 16:07
    po cara eu ta va la nesse dia do KID ABELHA, que a paula toller levou um choque, no micro fone, maior temporal, e nois numa galera de KOMBI , muito bom lembrar dessa epoca valeu .abrço
    sergio garbino -canoas
  • adriano mailto Qua 22 Jan 2014 13:51
    Eu trabalho na prefa també desde 86 cara lembro de muitos shows no Parque marina;;;;
  • adriano mailto Qua 22 Jan 2014 13:24
    cara estou aprocura de fotos desses show, esse dp Kid abelha eu estava lá, deu uma trovoada e começou a chover, a paula gritou que Deus vá a puta que pariu, na hora deu outro trovão e ela caiu pra trás com um choque, o povo se apavoriu e largou na correria, parecia um estouro de boiada, chovia tão forte que não dava pra ver nada, acho que tinha lá umas 60 mil pessoas
  • Sara Sex 25 Mar 2011 14:43
    Bah esse MPG 84 foi classico!!! Me lembro muito disso, lembro dos bombeiros molhando a galera de mangueira...o calor era intenso.E faltou tambem o Renato Borgueti....abraços
  • zu Sáb 30 Out 2010 20:41
    Relembrar e viver!
  • Ennio Gomes mailto Dom 25 Jul 2010 20:26
    Obrigado por me lembrar essas coisas boas, que muitas eu nem lembrava mais. Porto Alegre ainda é "um astral" como se dizia na época, mas, como saudosista, eu me impressionei com sua memória.


Seu comentário :

(Opcional)

(Opcional)

error

Importante: comentários racistas, insultas, etc. são proibidos nesse site.Caso um usuário preste queixa, usaremos o seu endereço IP (54.211.180.175) para se identificar     



Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para rogerioratner

Precisa estar conectado para adicionar rogerioratner para os seus amigos

 
Criar um blog